Numa primeira análise gostaríamos de assinalar a especificidade da indústria desportiva (no caso o futebol) e o distanciamento existente entre a análise operacional (desportiva) e análise económico-financeira que comummente se estabelece.
Assim sendo, o output financeiro deveria reflectir e avaliar a perfomance da gestão operativa, desportiva, de ditas sociedades. No entanto, o mundo do futebol é (por vezes) irracional não se reflectindo, muitas vezes, nos resultados (financeiros) os resultados desportivos e, consequentemente, distorcendo o seu valor real (justo) nos mercados financeiros.
Como modo de finalizar esta introdução, cabe também descrever que as contas anuais de uma sociedade (e principalmente o balanço de uma empresa) reflecte uma situação não evolutiva, ou seja, representa uma análise num determinado momento, uma fotografia da situação patrimonial da sociedade e não um filme, e que por critérios contabilisticamente aceites os valores de activos contabilizados são valorados a custo de aquisição e não a valores de mercado, o que por sua vez distorce a análise do balanço de uma empresa e inflaciona as mais-valias contabilísticas na venda de activos (que acontece como iremos analisar nas sociedades desportivas na venda dos direitos desportivos dos jogadores).

- Proveitos de transacções de jogadores: 41,5M€ de mais valias líquidas que resultam de transferências (ao valor da venda têm que ser subtraídos os custos inerentes a cada negócio e o valor líquido contabilístico dos respectivos direitos desportivos), principalmente:
- Quaresma para o Inter de Milão, por 24,6M€
- Lucho para o Marselha, por 18M€
- Paulo Machado para o Toulouse, por 3,5M€.
De salientar a relevância do peso dos proveitos com transacções de jogadores no total de proveitos.
- Analisando a evolução das rubricas de custos operacionais cabe destacar o peso dos custos com o pessoal na estrutura global de custos da FC Porto SAD.
- A FC Porto SAD despendeu em custos com pessoal na época de 2008/09 47,5 M€.
- A rubrica Custos com Pessoal representa cerca de 65% do total de custos operacionais.

Estes representam 70% do total dos proveitos (excluindo transacções de jogadores), no limite do recomendado pelos órgãos competentes da UEFA.
Incremento da massa salarial da época de 2008-09 em relação à época anterior de 8,8M€, 22,7%.
O FC Porto mantêm a sua politica de investimento, valorização e venda de jogadores, modelo este que continua a ser o principal suporte das contas do clube, que no entanto repercute um maior risco de negócio com a consequente aumento da massa salarial ao ter que reter as principais peças do plantel (note-se neste caso o efeito da lei Webster).
Prevê-se uma diminuição da rubrica de custos com pessoal para a presente temporada devido às saídas de jogadores que tinham uma representatividade significativa na massa salarial do plantel, como Lucho e Lisandro.
- EBITDA e Resultados Líquidos
O EBITDA da sociedade FC Porto SAD, ou seja os resultados antes de impostos, resultados finaceiros, amortizações e provisões, ascendeu, no período findo em Junho de 2009, a 38,1 M€, o que representa um incremento de 14,1%.
A margem de EBITDA situou-se em 35,2% do Volume de Negócios.
Este incremento no EBITDA, ou seja os meios operacionais libertos pela sociedade no período permitem financiar novos activos adquiridos assim como amortizar divida contraída junto de entidades bancárias e deste modo diminuir os juros incorridos nos exercícios futuros.

Como resultado de resultados financeiros negativos e das amortizações (principalmente amortização dos passes de jogadores) incorridas no exercício o Resultado Liquido do Exercício alcançou o montante de 5,1M€.
Neste capítulo cabe realçar o incremento dos custos financeiros em 42,7% devido ao incremento da dívida bancária.

Os Capitais Próprios da sociedade aumentaram devido a retenção dos Resultados Líquidos alcançados no exercício. Foram registados Capitais Próprios a Junho de 2009 no montante de 22,8 M€, encontrando-se actualmente por debaixo dos 50% do capital social. No Relatório e Contas da sociedade são referidas algumas abordagens / opções para colmatar este tema:
- Redução do capital social.
- Realização pelos sócios de entradas para reforço da cobertura do capital.
A dívida financeira líquida do Grupo aumentou em 7,6% como resultado do investimento efectuado no período no reforço do plantel.
O rácio de Net Debt EBITDA significa quantas vezes ou em quantos anos é que o Cash Flow económico (EBITDA) do exercício paga / amortiza a dívida financeira líquida da empresa.

Fazendo um comparativo com contas de sociedades desportivas nacionais publicadas recentemente e utilizando o exemplo da Sporting SAD (o SLB ainda não publicou o Relatório e Contas na CMVM). Desta comparativa, ressalta o facto de apesar da dívida financeira líquida da FC Porto SAD ser superior á da Sporting SAD o Cash Flow económico liberto pela sociedade portista permite ter uma estrutura financeira mais equilibrada para cumprir com os seus compromissos de financiamento.

- Nossas Conclusões e Alternativas Estratégicas
A época de 2008/09 foi, uma vez mais uma época de sucesso, sucesso no campo desportivo, com a conquista do Tetracampeonato, incluindo dobradinha e o alcance dos quartos de final com o campeão europeu então em título. Sucesso no subsequente na vertente económico-financeira, com a valorização de activos decorrente da exposição mediática na prova Champions League, mais valias mediante a venda de activos importantes como Lucho e Quaresma.
Saliente-se, também a vertente de formação e educacional com a consolidação do programa estratégico Dragon Force, que se espera, consiga potenciar (ainda mais) o modelo de negócio preconizada pela sociedade desportiva.
Como referido no Relatório e Contas da FC Porto SAD, estima-se que no próximo exercício a sociedade consiga gerar resultados positivos, devido ao aligeiramento dos valores correspondentes a salários, assim como a contabilização das mais valia da venda de activos relevantes como são a venda de Lisandro Lopez e Cissoko ao Lyon.
Também referido no Relatório e Contas, em Dezembro de 2009 vencerá o empréstimo obrigacionista da sociedade no valor de aproximadamente 15M€. Segundo o mesmo, “a sociedade tem já preparada uma operação financeira para reestruturação desse passivo de forma a assentar uma parte significativa da sua dívida no longo prazo.”
Neste seguimento, comentar também a necessidade do refinanciamento do passivo a curto prazo do Grupo de modo a flexibilizar a estrutura de financiamento dos activos da sociedade.
Pensamos também que o Management da sociedade deverá procurar outras alternativas na tentativa de obter uma maior estabilidade dos seus Cash Flows, através da diversificação dos seus negócios, nomeadamente para países em que exista uma maior proximidade cultural, tal como os países africanos, e aproveitar o investimento, quiçá, o investimento em infra-estruturas desportivas que se fará no Brasil e tentar acoplar estes mercados com a marca reconhecida que significa o nosso grande clube FCPorto.